Instituto Nacional de Economia Circular – INEC

Educação ambiental expõe contradições e caminhos da agenda sustentável no Brasil

Entre avanços institucionais e lacunas estruturais,
a educação ambiental segue como elo decisivo
para transformar discurso em ação

Por Marcelo Souza* 

O ano de 2025 foi muito especial para todos nós que acompanhamos de perto os grandes temas relacionados ao meio ambiente e à sustentabilidade. O fato de o Brasil ter sediado eventos de relevância internacional, como o WCEF 2025 e a COP30, possibilitou ampliar e aprofundar o debate sobre práticas sustentáveis.

Diante da grandeza das ocasiões citadas, seria injusto de minha parte não mencionar os avanços significativos alcançados anteriormente.

A partir de 2023, o Brasil deu passos importantes rumo à transição energética: houve a retomada e o fortalecimento da Agenda Ambiental, a consolidação da Política Nacional de Resíduos Sólidos e, com o Plano Nacional de Economia Circular, a circularidade passou a ocupar um lugar estratégico na agenda nacional. Esses são apenas alguns exemplos entre muitos avanços relevantes.

Dito isso, avançamos agora para o tema central deste artigo. Entendo que os progressos observados até aqui somente produzirão efeitos estruturantes se forem acompanhados por uma diretriz nacional consistente de educação ambiental.

Hoje, dia 26 de janeiro, é celebrado o Dia Mundial da Educação Ambiental. Por isso, a seguir, vamos analisar os dados e indicadores da educação ambiental no sistema educacional brasileiro, com o objetivo de evidenciar seu papel estratégico no aprofundamento do tema em todos os níveis de ensino.

Alunos da rede pública de ensino do Distrito Federal participam de atividades de educação ambiental na Escola da Natureza (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Educação ambiental como base para sustentar o futuro

Para que possamos sustentar os avanços ao longo do tempo, é fundamental que as gerações futuras compreendam a centralidade da questão ambiental.

Embora garantida pela Constituição desde 1988 e regulamentada pela PNEA (Lei nº 9.795/1999), a educação ambiental ainda é implementada de forma desigual no Brasil: em 2024, uma em cada três escolas não realizou nenhuma atividade sobre meio ambiente ou mudanças climáticas, segundo reportagem da Folha de S.Paulo, publicada em 12 de janeiro.

Desigualdades que revelam um desafio estrutural

O mesmo levantamento revela que o Sudeste apresenta o pior índice de ausência de ações ambientais nas escolas, com 42%, seguido pela região Norte, com 39%.

Em São Paulo, estado que concentra a maior rede escolar do país, o cenário é ainda mais crítico: 51% das instituições não desenvolveram nenhuma atividade de educação ambiental em 2024.

Como professor universitário e alguém que acompanha os desafios ambientais e energéticos do Brasil, considero esses números profundamente preocupantes.

Eles evidenciam uma contradição clara: enquanto o país avança no discurso sobre transição energética e sustentabilidade, falha em formar, desde a base, cidadãos preparados para compreender e enfrentar esses desafios.

Ir além de grandes campanhas e eventos pontuais é indispensável. Sem uma educação ambiental consistente, o risco é transformar políticas e compromissos climáticos em agendas distantes da realidade social.

Educação ambiental na prática

A boa notícia é que alguns estados já demonstram que é possível sair do discurso e colocar a educação ambiental em prática de forma consistente.

Paraná (95%), Tocantins (84%), Santa Catarina (82%), Espírito Santo (80%) e Pernambuco (77%) se destacam pelos altos percentuais de escolas que desenvolveram ações voltadas ao meio ambiente e às mudanças climáticas.

Esses exemplos reforçam que, quando há prioridade, coordenação e vontade política, a educação ambiental acontece de verdade e pode inspirar outros estados a avançar no mesmo caminho.

Cultura permanente

Ao longo de mais de 15 anos dedicados aos estudos, análises e à construção teórica e prática em torno da economia circular, posso afirmar, com convicção, que esse tema começa, enfim, a receber a atenção que sempre exigiu.

Ainda assim, os dados mostram que esse avanço é desigual e frágil se não estiver ancorado em uma educação ambiental sólida, contínua e estruturante.

Há sinais claros de que a mudança é possível e já está em curso em alguns territórios, o que reforça a urgência de ampliar essas experiências.

A educação ambiental precisa deixar de ser um complemento eventual e assumir o papel de cultura formadora, capaz de preparar cidadãos, profissionais e lideranças para sustentar a transição energética, a economia circular e um modelo de desenvolvimento compatível com os limites do planeta.

É nesse aprofundamento que residem não apenas os maiores desafios, mas também a principal esperança de transformação real no país.

 

*Marcelo Souza é presidente do INEC, CEO da Indústria Fox e autor dos livros “Reciclagem de A a Z – Circularidade de recursos para um futuro sustentável” e “Economia Circular: o mundo rumo à quinta revolução industrial”

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