O shopping center sueco transforma resíduos em valor e redefine o papel do consumo na economia circular
Por Raquel Gomes*
O avanço das discussões globais sobre sustentabilidade e gestão de resíduos tem evidenciado a urgência de transição para novos modelos de produção e consumo.
Nesse contexto, a economia circular apresenta-se como um caminho estruturante para a construção de sistemas econômicos mais resilientes, inclusivos e regenerativos.
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa transformação é o ReTuna Återbruksgalleria, localizado na cidade de Eskilstuna, na Suécia. Reconhecido internacionalmente como o primeiro shopping center dedicado exclusivamente à comercialização de produtos reutilizados, restaurados ou recondicionados, o ReTuna opera a partir de um princípio essencial: nem tudo o que é descartado perdeu o valor – muitas vezes, o que falta é uma nova arquitetura de processos, relações e significados.
Funcionamento do modelo
O ReTuna integra políticas públicas, economia circular e inovação social em um sistema único. Os moradores encaminham aos centros municipais de coleta diversos itens descartados – como móveis, eletroeletrônicos, roupas e utensílios domésticos – que são posteriormente direcionados ao shopping.
No local, passam por processos de triagem, reparo, redesign e recondicionamento, retornando ao mercado como produtos renovados e com maior valor de uso.
Esse processo ressignifica a relação entre consumo, descarte e valor. Mais do que uma solução ambiental, trata-se de um modelo que promove mudança cultural, ampliando a percepção social sobre reuso, responsabilidade compartilhada e design sustentável.
Impactos e relevância internacional
O ReTuna consolidou-se como referência global ao demonstrar que sustentabilidade, inovação e viabilidade econômica podem caminhar de forma integrada. Entre seus principais impactos, destacam-se:
- redução de resíduos destinados a aterros sanitários;
- diminuição do consumo de recursos naturais;
- geração de empregos verdes e atividades educacionais;
- fortalecimento da economia local.
Esses resultados posicionam o empreendimento como um caso exemplar de política pública e governança colaborativa aplicada à economia circular, contribuindo para o desenvolvimento territorial sustentável.
Educação, cidadania e inovação
Além de centro comercial, o ReTuna atua como espaço educativo e de experimentação prática, contribuindo para a formação de uma cultura de consumo consciente e estimulando o desenvolvimento de soluções inovadoras.
A experiência reforça o papel estratégico da educação para a sustentabilidade como ferramenta de transformação social e econômica.
Reflexões estratégicas para 2026
Diante dos desafios contemporâneos, como a crise climática, a pressão sobre recursos naturais e as desigualdades socioeconômicas, o modelo adotado pelo ReTuna suscita reflexões relevantes para governos, empresas, academia e organizações sociais:
- como integrar reuso e redesign nas cadeias produtivas?
- como estruturar políticas públicas voltadas à circularidade?
- como promover educação cidadã orientada para o consumo responsável?
O caso sueco reforça que a economia circular não é apenas um conceito teórico, mas uma prática concreta e replicável, capaz de gerar impactos ambientais, sociais e econômicos positivos.
Mais do que um espaço de comércio, o ReTuna funciona como um laboratório vivo de inovação sistêmica, demonstrando que o chamado “lixo” pode ser compreendido como recurso ainda não ativado. Essa visão reposiciona consumo, design e desenvolvimento sustentável como eixos estruturantes para um futuro mais justo e regenerativo.
Para quem tiver a oportunidade, vale conhecer o ReTuna Återbruksgalleria, em Västeråsvägen 7, SE-632 22 — Eskilstuna, Suécia.
*Raquel Gomes é mentora e consultora em inovação sustentável, economia criativa e desenvolvimento territorial