Instituto Nacional de Economia Circular – INEC

Laboratórios de inovação como vetores da Economia Criativa e Circular: conexões entre indústria e varejo no Rio de Janeiro

Um mapeamento de iniciativas que operam em múltiplas interfaces, evidenciando seu papel na construção de práticas alinhadas à Economia Circular

Por Raquel Gomes* 

 

A transição para modelos produtivos mais sustentáveis exige a articulação entre inovação tecnológica, criatividade e novos arranjos produtivos. Nesse contexto, laboratórios abertos e espaços maker emergem como infraestruturas estratégicas para impulsionar a Economia Criativa e Circular.

Este artigo analisa seis iniciativas no Rio de Janeiro: o Laboratório de Inovação e Design (LAID/UFRJ); o Laboratório de Economia Criativa da Cápsula; o Fashion Lab SENAI CETIQT; o Lab_CC PUC-Rio; o LEC ESPM Rio; e o Fab Lab da Casa Firjan. O texto destaca suas contribuições para a integração entre indústria e varejo, com foco em sustentabilidade, prototipagem e novos modelos de consumo.

A Economia Circular emerge como um paradigma alternativo ao modelo linear de produção e consumo, propondo a reorganização dos fluxos materiais e energéticos em ciclos regenerativos e restaurativos. Mais do que uma abordagem técnica, trata-se de uma reconfiguração sistêmica que envolve dimensões econômicas, ambientais, sociais e culturais.

Quando articulada à Economia Criativa, essa transição ganha densidade simbólica e capacidade de difusão, uma vez que os processos criativos operam na construção de significados, narrativas e novos padrões de consumo.

Nesse sentido, a convergência entre circularidade e criatividade potencializa não apenas a inovação tecnológica, mas também a transformação cultural necessária à sustentabilidade.

Nesse contexto, os laboratórios de inovação podem ser compreendidos como infraestruturas sociotécnicas intermediárias, cuja heterogeneidade é fundamental para o funcionamento dos ecossistemas de inovação. Para além da distinção entre laboratórios maker e não-maker, observa-se a emergência de uma terceira tipologia — os laboratórios maker híbridos — que operam como plataformas de articulação entre diferentes domínios institucionais e regimes de conhecimento.

Essa tipologia intermediária é particularmente relevante em contextos urbanos complexos, como o do Rio de Janeiro, onde a inovação depende da capacidade de conectar academia, indústria, mercado e sociedade. 

 

Laboratórios como infraestruturas de inovação sistêmica

A análise dos laboratórios selecionados evidencia que sua contribuição para a Economia Circular derivam tanto de suas capacidades técnicas, quanto de sua posição relacional no ecossistema

Nesse sentido, propõe-se uma tipologia analítica em três categorias: 

 

  • Maker: laboratórios voltados à materialização da inovação (prototipagem, fabricação, testes);

  • Não-maker: laboratórios que atuam nas dimensões simbólicas, estratégicas e socioculturais; 

  • Maker híbrido: laboratórios que combinam capacidades técnicas com articulação interinstitucional e orientação à inovação aberta. 

Essa terceira categoria — frequentemente negligenciada na literatura — desempenha papel central na mediação entre experimentação e aplicação, reduzindo lacunas entre desenvolvimento tecnológico e adoção no mercado.

Desse modo, a análise dos laboratórios não deve ser conduzida de forma isolada, mas sim a partir de suas interdependências e complementaridades, evidenciando como diferentes configurações institucionais e operacionais contribuem, de maneira articulada, para a consolidação de trajetórias de inovação orientadas à sustentabilidade. É neste enquadramento relacional que se insere os exemplos a seguir. 

LAID/UFRJ: indústria 4.0, design e transição sociotécnica (maker acadêmico)

O Laboratório Aberto de Inovação e Design (LAID/UFRJ) configura-se como uma infraestrutura acadêmica de natureza maker, voltada à integração entre design, arquitetura e engenharia, operando sob os princípios da Indústria 4.0. 

Indústria 4.0, design e transição sociotécnica são os pilares do LAID/UFRJ (LAID-UFRJ/Instagram)

Sua atuação pode ser interpretada à luz da teoria das transições sociotécnicas, na medida em que promove experimentações em nichos que desafiam regimes produtivos estabelecidos.


Ao incorporar tecnologias como fabricação digital e prototipagem avançada, o laboratório atua diretamente na materialização de soluções, contribuindo para: 
 

  • redução de externalidades ambientais no ciclo de vida dos produtos;

     

  • otimização do uso de recursos por meio do design orientado à circularidade;

     

  • desenvolvimento de soluções alinhadas a infraestruturas urbanas inteligentes. 


Trata-se, portanto, de um espaço onde a dimensão técnica da circularidade é testada e validada.


Cápsula Senac RJ: democratização tecnológica e inovação distribuída (maker territorial)

A Cápsula Senac RJ pode ser compreendida como um laboratório maker de base territorial, operando como dispositivo de inovação distribuída.

Ao promover acesso ampliado a tecnologias emergentes, sua atuação contribui para a descentralização produtiva e a democratização da inovação.

A Cápsula Senac RJ opera com ênfase na democratização da inovação (Arquivos Cápsula - Senac RJ)

Ao contrário dos laboratórios acadêmicos tradicionais, sua lógica está mais próxima de ecossistemas urbanos e dinâmicas locais. 

Entre suas contribuições estão: 

  • emergência de cadeias produtivas curtas e territorializadas; 

  • redução de barreiras de entrada para inovação; 

  • estímulo à autonomia produtiva e criativa. 


No âmbito da Economia Circular, reforça práticas de proximidade, customização e redução de desperdícios, características centrais de sistemas regenerativos. 

 

Fashion Lab SENAI CETIQT: infraestrutura tecnológica e inovação industrial (maker industrial)

O Fashion Lab SENAI CETIQT representa uma infraestrutura maker industrial, altamente equipada e orientada à interface com o setor produtivo. Sua atuação evidencia a convergência entre tecnologias digitais e processos industriais, permitindo:

 

  • prototipagem rápida e interativa;

     

  • simulação e visualização imersiva;

     

  • integração entre design, engenharia e produção. 

Com estrutura eficiente, o Fashion Lab SENAI CETIQT é referência na integração de diferentes setores (Divulgação/Andressa da Hora)

Do ponto de vista teórico, opera como um espaço de redução de incertezas tecnológicas, acelerando tanto inovações incrementais quanto radicais.

Além disso, ao incorporar práticas sustentáveis, contribui diretamente para a transição de cadeias produtivas intensivas em recursos para modelos mais eficientes e circulares. 


Lab EC ESPM Rio: economia da atenção e transformação da demanda (não-maker estratégico)

O Lab de Economia Criativa da ESPM Rio insere-se na tipologia de laboratórios não-maker, atuando nas dimensões simbólicas, comunicacionais e estratégicas da inovação. 


Sua atuação dialoga com a economia da atenção e com teorias de construção de valor simbólico, deslocando o foco da produção para a configuração da demanda.

Entre suas contribuições: 

  • reconfiguração de narrativas de consumo;

     

  • desenvolvimento de estratégias de branding sustentável;

     

  • experimentação de modelos de negócio baseados em propósito. 


Ao atuar sobre percepções e comportamentos, esse tipo de laboratório é fundamental para viabilizar a circularidade, uma vez que mudanças técnicas sem adesão cultural tendem a fracassar. 
 

Lab CC PUC-Rio: cultura, território e inovação social (não-maker sociocultural)

O Laboratório de Criatividade e Cultura da PUC-Rio também se configura como um laboratório não-maker, com ênfase nas dimensões culturais, sociais e territoriais da inovação.

Sua atuação pode ser compreendida a partir das teorias de inovação social e economias plurais, promovendo:

 

  • valorização de saberes locais;

     

  • fortalecimento de redes colaborativas;

     

  • desenvolvimento de soluções contextualizadas.

     

Nesse sentido, amplia a noção de circularidade ao incorporar fluxos imateriais, como conhecimento, cultura e capital social, fundamentais para uma abordagem regenerativa. 


Fab Lab Casa Firjan: mediação sociotécnica e inovação aberta (maker híbrido – eixo estruturante)

O Fab Lab da Casa Firjan, vinculado à Firjan, exemplifica a tipologia de laboratório maker híbrido, atuando como um nó articulador no ecossistema de inovação. 

 

Parte da rede Firjan SENAI, o Fab Lab promovendo inovação e criatividade (Casa Firjan)

Diferentemente de laboratórios puramente acadêmicos ou industriais, sua atuação se caracteriza combinando os seguintes fatores: 

  • infraestrutura de fabricação digital (dimensão maker);

     

  • programas de formação e capacitação (dimensão educacional);

     

  • conexão com indústria e empreendedorismo (dimensão econômica);

     

  • estímulo à inovação aberta e colaborativa (dimensão relacional).


Sob a perspectiva das infraestruturas sociotécnicas, o Fab Lab Casa Firjan pode ser interpretado como um intermediário de inovação, responsável por traduzir demandas entre diferentes atores e acelerar processos de experimentação aplicada.

No contexto da Economia Circular, sua relevância reside em três funções principais:

 

  • tradução: converte desafios industriais em protótipos e soluções tangíveis;

     

  • conexão: articula atores de diferentes setores (indústria, startups, criativos);

     

  • aceleração: reduz o tempo entre ideação, prototipagem e validação.


Essa atuação evidencia que a circularidade não depende apenas da capacidade de produzir ou comunicar, mas da existência de espaços capazes de integrar essas dimensões. 


Conexões sistêmicas: integração entre tipologias de laboratórios

A introdução dos laboratórios maker híbridos permite avançar de uma leitura dicotômica (maker vs. não-maker) para uma abordagem triádica e relacional, na qual diferentes tipologias desempenham funções complementares. Nesse arranjo: 

  • laboratórios maker operam na experimentação técnica; 

  • laboratórios não-maker atuam na construção de sentido e direcionamento estratégico; 

  • laboratórios maker híbridos conectam essas dimensões, viabilizando escala e aplicação. 

Essa arquitetura pode ser interpretada como um sistema de inovação distribuído, no qual o valor emerge da interação entre diferentes tipos de infraestrutura

Redução de lacunas entre desenvolvimento e mercado: os laboratórios híbridos desempenham papel crítico na superação do chamado “vale da morte” da inovação, ao conectar prototipagem e aplicação. 

Coordenação entre oferta e demanda: enquanto laboratórios maker desenvolvem soluções e não-makers influenciam o comportamento, os híbridos alinham essas dimensões, aumentando a probabilidade de adoção. 

Escalabilidade da inovação circular: a presença de laboratórios híbridos permite que soluções desenvolvidas em nichos experimentais sejam adaptadas e difundidas em escala. 

Integração multissetorial: esses espaços operam como plataformas de convergência entre academia, indústria e economia criativa, fortalecendo os ecossistemas locais. 

Economia Criativa e Circular: convergência e complexidade

A interseção entre Economia Criativa e Economia Circular pode ser mais bem compreendida quando mediada por infraestruturas capazes de integrar materialidade e simbolismo.

Nesse sentido, a tipologia ampliada de laboratórios revela três camadas de atuação:

 

  • Material (maker) → desenvolvimento de soluções técnicas 

     

  • Simbólica (não-maker) → construção de significado e valor

     

  • Relacional (maker híbrido) → articulação, tradução e difusão


Os laboratórios híbridos assumem, portanto, um papel estratégico na governança da inovação, ao permitir que soluções tecnicamente viáveis sejam culturalmente aceitas e economicamente sustentáveis.

Essa mediação é particularmente relevante em agendas orientadas por missão, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que exigem coordenação entre múltiplos atores e escalas.

Para sistematizar essa análise, evidenciar as especificidades e complementaridades entre as diferentes tipologias de laboratórios discutidas, apresenta-se a seguir um quadro comparativo dos laboratórios analisados, destacando suas naturezas institucionais, focos de atuação e contribuições para a Economia Circular. 

Quadro Comparativo dos Laboratórios

Fonte: Elaboração própria, a partir de Frank W. Geels (2002; 2011), Ellen MacArthur Foundation (2013; 2019) e Mariana Mazzucato (2018)

 

Considerações finais

A análise evidencia que a transição para uma Economia Circular não pode ser compreendida apenas a partir de capacidades tecnológicas ou mudanças culturais isoladas, mas como resultado da articulação entre diferentes tipologias de infraestruturas de inovação.

A introdução da categoria de laboratórios maker híbridos permite avançar na compreensão dos ecossistemas de inovação, ao evidenciar o papel de espaços que operam como mediadores entre produção, mercado e sociedade.

Observa-se que, enquanto laboratórios maker — como o LAID/UFRJ, a Cápsula Senac RJ e o Fashion Lab SENAI CETIQT — atuam diretamente na materialização da inovação, especialmente por meio de prototipagem, experimentação e desenvolvimento tecnológico em diferentes contextos (acadêmico, territorial e industrial), e laboratórios não-maker — como o Lab EC da ESPM Rio e o Lab CC da PUC-Rio — operam nas dimensões simbólicas e socioculturais, o Fab Lab Casa Firjan ocupa uma posição estratégica ao integrar essas dimensões, configurando-se como um laboratório maker híbrido que conecta experimentação técnica, articulação institucional e aplicação no mercado.

Essa complementaridade constitui a base para a emergência de sistemas de inovação mais robustos, capazes de sustentar transições complexas como a da Economia Circular.

No contexto do Rio de Janeiro, essa configuração evidencia a consolidação de um ecossistema no qual a diversidade de infraestruturas não é redundante, mas sim condição para a transformação sistêmica.

 

*Raquel Gomes é mentora e consultora em inovação sustentável, Economia Criativa e desenvolvimento territorial. Atua com formação empreendedora, inteligência competitiva e estratégias de impacto socioambiental. 


Referências:
ELLEN MACARTHUR FOUNDATION. Towards the circular economy: Economic and business rationale for an accelerated transition. Cowes: Ellen MacArthur Foundation, 2013.

ELLEN MACARTHUR FOUNDATION. Completing the picture: How the circular economy tackles climate change. Cowes:

Ellen MacArthur Foundation, 2019.

STAHEL, Walter R. The performance economy. 2. ed. London: Palgrave Macmillan, 2010.

WEBSTER, Ken. The circular economy: A wealth of flows. 2. ed. Cowes: Ellen MacArthur Foundation Publishing, 2017.

GEELS, Frank W. Technological transitions as evolutionary reconfiguration processes: a multi-level perspective. Research Policy, v. 31, n. 8–9, p. 1257–1274, 2002.

GEELS, Frank W. The multi-level perspective on sustainability transitions: responses to seven criticisms. Environmental Innovation and Societal Transitions, v. 1, n. 1, p. 24–40, 2011.

LUNDVALL, Bengt-Åke (ed.). National systems of innovation: Towards a theory of innovation and interactive learning. London: Anthem Press, 2010.

CHESBROUGH, Henry. Open innovation: The new imperative for creating and profiting from technology. Boston: Harvard Business School Press, 2003.

MAZZUCATO, Mariana. The entrepreneurial state: Debunking public vs. private sector myths. London: Anthem Press, 2013.

MAZZUCATO, Mariana. Mission-oriented innovation policies: Challenges and opportunities. Industrial and Corporate Change, v. 27, n. 5, p. 803–815, 2018

HOWKINS, John. The creative economy: How people make money from ideas. London: Penguin, 2001.

UNESCO. Creative economy report 2013: Widening local development pathways. Paris: UNESCO, 2013.

BOURDIEU, Pierre. The forms of capital. In: RICHARDSON, J. (ed.). Handbook of theory and research for the sociology of education. New York: Greenwood, 1986.

MULGAN, Geoff. Social innovation: What it is, why it matters and how it can be accelerated. London: The Young Foundation, 2007.

MANZINI, Ezio. Design, when everybody designs: An introduction to design for social innovation. Cambridge: MIT Press, 2015.

POLANYI, Karl. The great transformation: The political and economic origins of our time. Boston: Beacon Press, 2001.

UNITED NATIONS. Transforming our world: The 2030 agenda for sustainable development. New York: UN, 2015.

UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME. Sustainable consumption and production: A handbook for policymakers. Nairobi: UNEP, 2015
Facebook
LinkedIn
X
WhatsApp
Email

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Tags