A Economia Circular superou a classificação de “pauta ambiental”, transformando-se em uma ação fundamental na agenda econômica de Estados e empresas
Por Roseli Nogueira*
Como profissional com longa trajetória na intersecção entre Tecnologia da Informação e Sustentabilidade, com foco no setor manufatureiro, tenho acompanhado a evolução dos processos de negócios sob um prisma estratégico: a Economia Circular superou o status de salvaguarda ambiental, tornando-se um imperativo de resiliência.
Hoje, a discussão transcende a preservação ambiental; trata-se da viabilidade das cadeias de suprimentos frente à volatilidade geopolítica e à escassez de recursos. A transição para uma operação de baixo carbono deixou de ser uma barreira de conformidade para se tornar o núcleo da competitividade e da estratégia corporativa moderna.
Sob esta ótica, baseada em anos de experiência em consultoria e gestão de impacto com foco na circularidade como mecanismo para mitigar impactos produtivos, otimizar custos e reduzir riscos, analisaremos a Economia Circular como estratégia vital de resiliência, descarbonização e competitividade global.
1 – O legado da Revolução Industrial e a gênese do modelo linear
Para compreendermos a urgência da transição rumo a uma economia de baixo carbono, é imperativo analisar as raízes do nosso sistema produtivo.
A gênese da Economia Linear consolidou-se no século XVIII, na Inglaterra. A Primeira Revolução Industrial não apenas inaugurou a era do motor a vapor e da mecanização, mas estabeleceu um paradigma perigoso: a ilusão da abundância infinita de recursos.
Estima-se que, desde então, a extração global de materiais tenha crescido de forma exponencial, atingindo a marca de 100 bilhões de toneladas por ano, das quais apenas 6,9% retornam ao ciclo produtivo, conforme o relatório da Circle Economy (2025) — um percentual menor que o registrado no ano anterior, que foi de 7,2%.
1.1 – Da eficiência artesanal à escala industrial
Até o advento da mecanização, a produção era artesanal e intrinsecamente circular; a escassez de recursos tornava o reaproveitamento a norma de sobrevivência econômica.
Com a industrialização, o carvão e o ferro viabilizaram uma escala operacional sem precedentes, na qual o sucesso passou a ser mensurado pela velocidade de conversão de matéria-prima em produto acabado. Nesse cenário, o meio ambiente foi relegado ao papel de fornecedor inesgotável e receptor gratuito de externalidades negativas.
Dados consolidados pelo IPCC em 2024 reforçam que a eficiência material e a circularidade são pilares inegociáveis: sem a redução da demanda por recursos virgens, a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C torna-se fisicamente inalcançável, independentemente do avanço das energias renováveis.
A Economia Circular deixa de ser um “tópico adicional” para se tornar, segundo o órgão, uma das estratégias de menor custo e maior impacto para a indústria pesada.
2 – O catalisador bélico e a padronização do desperdício
A simbiose entre industrialização e conflitos armados foi o grande acelerador do modelo linear. A demanda por produção em massa de armamentos e suprimentos — das Guerras Napoleônicas às Grandes Guerras do século XX — forjou os conceitos de padronização e obsolescência que ainda regem muitos setores.
- Logística de exaustão: o esforço de guerra priorizava o output imediato e a máxima performance na entrega, negligenciando completamente o ciclo de vida ou a destinação final dos materiais.
- Aceleração tecnológica reativa: sob pressão da defesa nacional, as indústrias química e metalúrgica desenvolveram materiais sintéticos e ligas de alta resistência, projetados para a durabilidade funcional, mas desprovidos de planos de recuperação pós-uso.
No pós-guerra, essa “máquina industrial de combate” foi redirecionada para o consumo doméstico. A necessidade de acelerar o giro econômico para sustentar o pleno emprego transformou o conceito de “extrair, usar e descartar” no maior símbolo de progresso e liberdade do século XX.
Essa transição consolidou uma herança insustentável que ainda hoje define o nosso sistema produtivo. O que antes era visto como o auge do progresso, revelou-se um passivo ambiental de proporções globais, cujas consequências futuras são projetadas com gravidade por organismos internacionais.
De acordo com a Organisation for Economic Co-operation and Development (OCDE, 2022), “se o atual modelo linear de produção e consumo persistir, a geração global de resíduos plásticos deverá triplicar até 2060, saltando de 353 milhões de toneladas para 1.014 milhões de toneladas. Este cenário projeta que o vazamento de plásticos para o meio ambiente também dobrará, atingindo 44 milhões de toneladas anuais, consolidando uma herança de insustentabilidade sem precedentes para as futuras gerações”.
3 – A ruptura necessária: do esgotamento à regeneração
Atualmente, enfrentamos o esgotamento físico de um modelo nascido sob o signo da urgência bélica, mas que hoje sucumbe às próprias tensões geopolíticas que ajudou a criar.
A escassez de matérias-primas críticas e as atuais fraturas no comércio global não são eventos isolados, mas reflexos diretos de um sistema que negligenciou a regeneração de seus ativos e a resiliência de suas rotas.
Conflitos contemporâneos, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, expuseram a perigosa dependência europeia e global de insumos energéticos e minerais provenientes de zonas de alta instabilidade, paralisando linhas de manufatura e disparando a inflação de custos.
Da mesma forma, as tensões envolvendo potências globais e o Irã, que colocam sob constante ameaça o Estreito de Ormuz — por onde flui parcela vital do suprimento energético mundial —, demonstram que o modelo linear de just-in-time globalizado atingiu seu limite de segurança.
Dados de 2024 indicam que mais de 76% dos embarques europeus sofreram interrupções severas na cadeia de suprimentos devido a conflitos geopolíticos e eventos climáticos extremos. Sob o fator geopolítico, 1 em cada 3 empresas relatou dificuldade crítica em garantir materiais necessários para a produção devido a esses gargalos.
Neste cenário, a readequação das cadeias de suprimentos transcende a esfera ética; trata-se de uma manobra estratégica de sobrevivência.
A transição para a economia circular surge como a resposta técnica para a desrisquização (de-risking) das operações: ao transformar resíduos em insumos e implementar ciclos de reuso locais, as organizações reduzem a exposição à volatilidade de preços e aos bloqueios logísticos internacionais.
4 – Impacto na descarbonização e demanda por minerais críticos
Dados da Ellen MacArthur Foundation indicam que a adoção de princípios circulares em setores como cimento, alumínio, aço e plástico pode reduzir as emissões industriais em até 3,7 bilhões de toneladas de CO2 equivalente até 2050.
Complementarmente, a Agência Internacional de Energia (IEA), em seu relatório de 2025, destaca que a demanda por lítio cresceu 30% apenas em 2024.
Com a projeção de que a necessidade de grafite e níquel dobre até 2040, a conexão circular torna-se óbvia: sem reciclagem de baterias e remanufatura, a lacuna de suprimentos será impossível de fechar apenas com mineração primária.
5 – Conclusão
Atualizar os modelos de negócio para uma realidade de baixo carbono e alta resiliência é, portanto, a única via para garantir a competitividade.
Em um mercado onde o acesso aos recursos naturais tornou-se uma arma geopolítica, a autonomia conquistada pela circularidade deixa de ser um diferencial sustentável para se tornar o alicerce da continuidade operacional.
Empresas que ainda não compreenderam a Economia Circular como uma estratégia vital de resiliência e descarbonização correm o risco iminente de perderem não apenas mercado, mas seu valor intrínseco perante o novo ecossistema global.