O desempenho da Pandora mostra que circularidade e resultado financeiro podem avançar juntos
Por Bianca Giacomin*
A Pandora, conhecida por muitos pelos seus braceletes personalizáveis e pingentes, é considerada a maior joalheria do mundo em volumes de produção e vendas. O que chama a atenção, no entanto, é que seu crescimento acelerado não veio acompanhado de aumento proporcional de impactos ambientais em termos de emissões de carbono.
Desde 2019, a empresa cresceu 49% em receita ao mesmo tempo em que reduziu em 17% as emissões de carbono em sua cadeia de valor.
Esse resultado impressionante está ancorado em uma estratégia de sustentabilidade que posiciona a Economia Circular como um dos três pilares principais:
- Baixo-carbono: compromisso de reduzir as emissões pela metade até 2030 e atingir net zero até 2040;
- Circularidade: uso exclusivo de pedras artificiais e de ouro e prata provenientes de reciclagem, reduzindo a dependência de recursos virgens e mantendo materiais em circulação por mais tempo;
- Inclusão e Diversidade: com a meta de paridade de gênero na alta liderança até 2030.
Ao avaliar seus principais impactos, a empresa identificou que a substituição para 100% de ouro e prata reciclados, suas principais matérias-primas, poderia evitar a emissão de 58 mil toneladas de CO₂ por ano, ao mesmo tempo em que reduz a dependência de mineração e reforça o uso contínuo de materiais já existentes na cadeia.
Embora o ouro já apresente alta reciclabilidade por seu valor agregado, apenas cerca de 20% da prata global era reciclada. Para superar essa barreira, a empresa atuou em diferentes frentes.
VEJA: Relatório Anual 2025 – Pandora
Negócio Integrado
Para aumentar o controle e a capacidade de influência sobre sua cadeia de valor, a Pandora optou por atuar de forma integrada em diversas etapas do negócio, desde o design das joias e escolha de matérias-primas até operações, embalagens, distribuição, pontos de venda e serviços de reparo.
Esse movimento incluiu inclusive a recompra de lojas que operavam anteriormente sob modelo de franquia.
O modelo integrado amplia o controle sobre o fluxo de materiais ao longo da cadeia, permitindo maior rastreabilidade, recuperação de valor e implementação de práticas circulares desde o design até o pós-consumo.
Conexão com a liderança
Para garantir a execução da estratégia, a empresa vinculou 25% da remuneração variável da alta liderança ao atingimento de metas de sustentabilidade validadas pela Science Based Targets initiative. Esse alinhamento reforça a prioridade do tema na tomada de decisão e na gestão do negócio.
Ao vincular metas de sustentabilidade à remuneração variável, a empresa internaliza também o pilar da circularidade como critério de decisão, garantindo que princípios como redução de resíduos, uso de materiais reciclados e eficiência de recursos sejam considerados na gestão do negócio.
Integração com fornecedores
A transformação da cadeia de valor exigiu forte engajamento com fornecedores ao longo de aproximadamente quatro anos. A empresa estruturou um modelo de operação e auditou mais de 40 fábricas para garantir conformidade com os padrões de cadeia de custódia do Conselho de Joalheria Responsável (Responsible Jewellery Council).
Grande parte dos fornecedores não possuía, inicialmente, capacidade para fornecer prata reciclada ou mecanismos adequados de certificação. Isso demandou investimentos, adaptação de processos e implementação de novos equipamentos.
Para viabilizar essa transição, a Pandora investiu cerca de 10 milhões de euros, apoiando diretamente a evolução de sua cadeia e reforçando o princípio da Economia Circular ao manter materiais em uso e reduzir a dependência de recursos virgens.
A transformação da cadeia de valor exigiu o desenvolvimento de capacidades nos fornecedores para viabilizar o uso de materiais reciclados em escala, um dos principais desafios da Economia Circular. Isso incluiu adaptação de processos, certificação de origem e garantia de rastreabilidade dos materiais.
Energia renovável
A Pandora também incorpora o uso de energia renovável em suas operações, reforçando o princípio de regeneração da Economia Circular ao reduzir a dependência de fontes fósseis e os impactos associados à produção.
Em 2024, no mesmo período em que concluiu a transição para ouro e prata reciclados, a empresa também passou a operar com 100% de energia proveniente de fontes renováveis.
Economia Circular como estratégia
Os esforços da Pandora mostram que, ao integrar a Economia Circular à estratégia do negócio e engajar stakeholders de forma estruturada, da liderança aos fornecedores, é possível transformar a cadeia de valor e gerar resultados consistentes.
O caso mostra que crescimento e redução de impacto deixam de ser objetivos conflitantes quando a economia circular é tratada como estratégia de negócio, e não como iniciativa isolada.
A redução de emissões não ocorre de forma linear. Ainda assim, o caso demonstra que é possível dissociar o crescimento econômico de aumento de emissões. Os próximos passos da empresa indicam que essa jornada continua, com novos desafios e oportunidades na consolidação de um modelo verdadeiramente circular.