Instituto Nacional de Economia Circular – INEC

Modelos de negócio circulares: a promessa ambiental que precisa de provas

A Economia Circular é o assunto do momento, mas para ser sustentável é preciso ir além do produto e focar no modelo de negócio

Por Ana Carolina Bertassini*

Nos últimos anos, a Economia Circular tem ganhado espaço como parte das estratégias de negócios adotadas por cada vez mais empresas. Diversas são as estratégias e soluções que prometem reduzir resíduos, prolongar a vida útil de produtos, aumentar a recuperação de materiais e substituir a lógica linear de extrair, produzir, consumir e descartar.

A adoção de modelos de negócio circulares é vista como a chave para que a transição para a economia circular ganhe escala e de fato possibilite sair da lógica linear.

No entanto, ainda existe uma lacuna significativa entre a intenção de design e implementação de modelos de negócio circulares e os resultados efetivamente alcançados. 

A armadilha da avaliação fragmentada

Computadores e eletrônicos são recondicionados para reciclagem e doações na Central de Recondicionamento de Computadores (CRC), no Distrito Federal. (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Na prática, muitas iniciativas circulares ainda são avaliadas de forma fragmentada. De um lado, avalia-se o impacto ambiental de produtos, componentes ou materiais. De outro, observam-se indicadores econômicos, como custos, receita, margem, viabilidade comercial e investimentos.

Essa separação pode até fazer sentido em abordagens tradicionais de gestão, mas é insuficiente quando o objetivo é compreender se um modelo de negócio circular gera, de fato, benefícios ambientais consistentes ao ser implementado e escalado.

Isso acontece porque a circularidade não se resume a atributos de produto. Um produto reutilizável, remanufaturado ou reciclável pode, em tese, apresentar vantagens ambientais em comparação a uma alternativa linear. Mas isso não significa automaticamente que o modelo de negócio necessário para viabilizá-lo terá o mesmo desempenho ambiental positivo.

Na realidade, é o modelo de negócio que determina como a solução circular opera, ou seja, quantos fluxos logísticos serão necessários, qual será a taxa de retorno dos produtos, quantas perdas ocorrerão no processo, quanta energia será consumida para coleta, triagem, limpeza, remanufatura ou reciclagem, quais materiais de reposição serão exigidos e qual escala será necessária para que o sistema funcione.

Em outras palavras, um produto pode parecer ambientalmente superior quando analisado isoladamente, mas perder essa vantagem quando inserido na operação real de um modelo de negócio. Da mesma forma, uma proposta circular pode ser economicamente atraente, gerar novas fontes de receita e fortalecer a imagem da empresa, mas ainda assim não entregar a redução ambiental esperada. Sem essa mensuração, corre-se o risco de confundir potencial com desempenho efetivo. 

Do produto ao modelo de negócio: a mudança de paradigma na avaliação

É exatamente por isso que a avaliação precisa avançar do nível do produto para o nível do modelo de negócio. Isso significa analisar, de forma combinada, os impactos ambientais e a lógica de criação, entrega e captura de valor da solução circular.

Não basta saber, por exemplo, que um material reciclado tem menor impacto do que a matéria-prima virgem.

É preciso entender em que condições esse material retorna, qual infraestrutura é necessária para recuperá-lo, quais etapas adicionais são introduzidas, que trade-offs surgem ao longo do ciclo de vida e como tudo isso se relaciona com a proposta de valor, os parceiros, os custos, as receitas e a escala do negócio. 

O caso das jaquetas alugadas: circularidade nem sempre é sustentabilidade automática

Modelos como aluguel de produtos podem até reduzir a produção, mas logística, transporte e operação podem anular esse ganho.

Um exemplo disso são modelos de negócio de produto-como-serviço. No caso apresentado por Goffetti et al. (2022), foram comparados dois modelos de negócio para jaquetas: venda tradicional e aluguel.

À primeira vista, o aluguel pode parecer uma alternativa naturalmente mais sustentável, já que está associado à ideia de intensificação do uso e redução da necessidade de produzir novos produtos. No entanto, os resultados desse estudo mostraram que o modelo de aluguel não apresentava melhor desempenho ambiental em todos os cenários analisados.

Seu desempenho dependia de condições específicas, como número de usos, padrões logísticos, transporte do consumidor para retirar e devolver as peças alugadas, manutenção e operação do sistema.

Ou seja, a simples adoção de uma lógica circular não garantiu, por si só, melhor desempenho ambiental. Esse caso mostra que um modelo circular pode ser promissor em teoria, mas seu benefício real depende de como ele funciona na prática.

Isso é relevante porque muitos modelos circulares dependem de aspectos operacionais que podem não funcionar na prática como o planejado no momento de design do modelo de negócio, como por exemplo, taxas de retorno menores que o previsto, transporte mais intenso, baixa durabilidade, necessidade frequente de substituição de peças, alto consumo energético em etapas de reprocessamento ou dificuldade de fechar ciclos com qualidade.

O modelo de negócio continua sendo considerado circular por definição, continua sendo comunicado como solução sustentável, mas seus resultados reais podem ser muito mais modestos do que se imaginava (e esperava). 

 

Evitando riscos e ganhando transparência

É nesse contexto que medir o desempenho ambiental no nível do modelo de negócio deixa de ser uma etapa opcional e passa a ser uma condição estratégica para que modelos de negócio circulares ganhem escala e de fato entreguem os benefícios ambientais que prometem.

Quando modelos de negócio circulares são desenhados e implementados e não passam por ciclos de validação empírica-quantitativa (por exemplo, com uso de metodologias embasadas no ciclo de vida como Business Model Life Cycle Assessment – BM-LCA), as consequências podem ser relevantes: 

  • Risco de superestimar benefícios ambientais: pode-se investir recursos, tempo e reputação em soluções que não entregam os resultados esperados. 

  • Dificuldade de tomar decisões melhores: sem evidência quantitativa, torna-se impossível identificar onde estão os reais hotspots ambientais, quais elementos do modelo de negócio precisam ser redesenhados e quais condições operacionais são decisivas para que a circularidade funcione. 

  • Perda de transparência perante stakeholders: em um contexto em que cresce a exigência por dados, rastreabilidade e prestação de contas, não será mais suficiente afirmar que uma solução é circular; será necessário demonstrar que ela reduz impactos de forma mensurável e tem um desempenho ambiental superior. 

Além disso, a ausência de avaliação abre espaço para um problema cada vez mais importante: a adoção de modelos circulares baseados mais em expectativas positivas do que em evidências de desempenho.

Em muitos casos, presume-se que circularidade e benefício ambiental caminham juntos. Mas essa associação precisa ser testada, não apenas assumida. Sem essa verificação, organizações podem perpetuar soluções bem-intencionadas, porém ambientalmente limitadas, e deixar de priorizar alternativas com maior efetividade. 

Os benefícios da avaliação integrada

Por outro lado, quando a avaliação é incorporada desde o design e a experimentação do modelo de negócio, seus benefícios são amplos.

Passa-se a compreender melhor os efeitos sistêmicos do modelo de negócio circular, consegue-se identificar trade-offs antes invisíveis, compara-se cenários com maior robustez e toma-se decisões mais qualificadas sobre escala, logística, manutenção, reuso, remanufatura, reciclagem e recuperação de materiais.

Essa avaliação quantitativa também pode fortalecer a governança, melhorar a comunicação com stakeholders e contribuir para evitar que a economia circular se reduza a uma narrativa atraente, mas pouco transformadora.

Na Economia Circular, não basta avaliar os impactos ambientais do produto e desempenho econômico do negócio em trilhas separadas. É preciso conectar essas dimensões e avaliar o desempenho no nível em que a circularidade realmente acontece: o nível do modelo de negócio.


Se queremos que a Economia Circular cumpra sua promessa de gerar valor econômico com redução de impactos ambientais, precisamos sair da lógica da suposição e entrar na lógica da evidência.


Isso exige métodos, dados, indicadores e, sobretudo, uma mudança de mentalidade. Circularidade não deve ser tratada como sinônimo automático de sustentabilidade, mas como uma hipótese que precisa ser validada na prática.


Avaliar, nesse sentido, vai muito além de controlar. É aprender, corrigir, priorizar e transformar.
E talvez esse seja um dos passos mais importantes para que a Economia Circular avance de iniciativas promissoras para resultados concretos. 

 

*Ana Carolina Bertassini é pesquisadora na Chalmers University of Technology (Suécia), doutora e mestre em Engenharia de Produção pela EESC-USP. Atua em projetos de reciclagem e remanufatura de resíduos eletroeletrônicos em parceria com a Indústria Fox.
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