Além de gerar inúmeros benefícios ambientais, os princípios da Economia Circular são capazes de garantir eficiência operacional e rentabilidade
Por Bianca Giacomin*
Ainda existe um entendimento equivocado de que a alocação de recursos e energia em ações de sustentabilidade representa apenas um custo adicional para as empresas. Essa percepção, em grande parte, vem do fato de que iniciativas sustentáveis costumam ser comunicadas principalmente a partir de seus benefícios ambientais, sociais e de governança, sem uma conexão clara com geração de valor econômico, eficiência operacional e redução de riscos.
Uma mudança de perspectiva, que compreenda como a sustentabilidade se conecta ao potencial econômico dos negócios, abre espaço para novas oportunidades.
Ao observar a Economia Circular, por exemplo, é possível identificar três princípios fundamentais: (1) eliminar resíduos e poluição, (2) manter produtos e materiais em circulação e (3) regenerar a natureza. Em conjunto, esses princípios contribuem diretamente para o aumento da rentabilidade e para a diminuição de riscos corporativos.
Já em 2015, estimava-se que a Economia Circular teria o potencial de gerar 4,5 trilhões de dólares até 2030 e 24 trilhões de dólares até 2050. Esses números reforçam que a circularidade não é apenas uma agenda ambiental, mas uma estratégia econômica relevante.
A seguir, vamos entender como cada princípio do modelo circular se traduz em oportunidade financeira tangível, com exemplos setoriais e mecanismos de captura de valor.
Eliminar resíduos e poluição
Ao repensar o negócio sob a ótica da eliminação de resíduos e poluição, o impacto nos custos operacionais torna-se evidente. O desenvolvimento de tecnologias que permitem o retorno de resíduos ao processo produtivo, seja como matéria-prima ou fonte de energia, reduz a dependência de insumos virgens e diminui gastos com tratamento e destinação final.
No setor de celulose e papel, por exemplo, a valorização de resíduos de biomassa para geração de energia já é uma realidade consolidada, reduzindo custos com eletricidade e criando receita adicional com a venda de excedentes. Empresas químicas e de transformação têm implementado simbiose industrial, onde o resíduo de uma torna-se insumo para outra, gerando economias logísticas e ambientais significativas.
O que antes era “custo de descarte” transforma-se em fluxo de valor interno, diminuindo também a exposição a multas, passivos ambientais e riscos regulatórios crescentes.
Manter produtos e materiais em circulação
Manter produtos e materiais em circulação representa uma alavanca clara de valor econômico. A reciclagem interna de matérias-primas reduz custos e aumenta a eficiência do processo produtivo. Em cenários de escassez hídrica, o reaproveitamento da água, um insumo essencial, vai além da economia financeira e fortalece a continuidade do negócio.
Um exemplo prático é a fábrica da Coca-Cola, em Jundiaí-SP, que reduziu em mais de 70% o consumo de água por litro de bebida produzida através da implementação de tecnologias de reuso e sistemas de controle eletrônico. Além do ganho econômico, a empresa aumentou sua resiliência ao operar em uma região de alto estresse hídrico, reduzindo o risco de interrupções produtivas no futuro.
Regenerar natureza
Regenerar a natureza não é relevante apenas por seus benefícios ambientais. Há também um potencial econômico expressivo associado a essa estratégia. Pesquisas indicam que a agricultura regenerativa no Cerrado brasileiro representa uma oportunidade de até 100 bilhões de dólares em valor econômico e pode impulsionar o PIB brasileiro em cerca de 20 bilhões de dólares por ano até 2050.
Ao investir em práticas regenerativas, as empresas fortalecem a produtividade no longo prazo, reduzem a dependência de insumos externos e aumentam sua capacidade de adaptação frente às mudanças climáticas.
Uma alavanca de valor
Ao aplicar os conceitos da Economia Circular, as empresas acessam diferentes alavancas de valor, como redução de custos, inovação, mitigação de riscos, aumento da eficiência operacional e fortalecimento da resiliência do negócio.
Isso mostra que o conceito superou o status de “tendência”, consolidando-se como uma estratégia econômica capaz de gerar valor no presente sem comprometer o futuro.
Mais do que sustentabilidade, uma estratégia financeira
A transição para modelos circulares exige investimento inicial, redesenho de processos e, sobretudo, mudança de mentalidade.
No entanto, os casos em curso mostram que o retorno vai além do apelo de marketing da sustentabilidade: trata-se de construir negócios mais adaptáveis, eficientes e preparados para o futuro. Um futuro que será, inevitavelmente, mais escasso em recursos e mais exigente em responsabilidade.
*Bianca Giacomin é Engenheira Química pela Universidade Federal de Viçosa e pós-graduada em Meio Ambiente e Sustentabilidade pela FGV.