Não é de hoje que a consciência socioambiental coloca o bloco na rua e transforma a folia em sustentabilidade
Por Raquel Gomes*
A década de 2010 foi marcada pelo avanço concreto da sustentabilidade no Brasil. A consolidação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) movimentou o setor produtivo do país e gerou impactos que, aos poucos, passaram a inspirar outros setores, entre eles o da cultura.
Não há dúvidas de que o Carnaval, principal festividade brasileira, é um poderoso vetor de geração de renda, que vai da produção de fantasias e alegorias à movimentação dos setores de serviços e turismo.
Nesse cenário, a economia criativa consolida-se como ativo estratégico, combinando valor cultural, impacto social e dinamismo econômico.
A cada ano, aumentam as iniciativas de sustentabilidade realizadas por escolas de samba, blocos carnavalescos e pelo poder público, demonstrando que, assim como no setor produtivo, as demandas socioambientais tornaram-se estratégicas e indispensáveis.
O Carnaval passou, mas os bons exemplos ficam e podem ser aprimorados. Neste artigo, vamos refletir sobre a relevância das economias Criativa e Circular nesse contexto e analisar casos, do presente e do passado, que podem nos inspirar em ações futuras.
Sustentabilidade na folia em Salvador
O Carnaval de Salvador deste ano foi uma vitrine de sustentabilidade, com iniciativas que unem economia circular, inclusão produtiva e descarbonização.
O “Desfile Sustentável” integrou poder público, cooperativas e parceiros institucionais para reduzir resíduos e gerar renda a catadores. A festa mobilizou mais de 2.500 trabalhadores, reciclou mais de 100 toneladas de materiais e ainda entrou para o Guinness World Records com a maior ação de reciclagem de latinhas do mundo.
O resultado mostra que grandes eventos culturais podem impulsionar a transição socioambiental com impacto real.
Reciclagem em destaque nos megablocos de SP
Em São Paulo, durante a abertura do Carnaval de Rua 2026, no Ibirapuera, a Prefeitura implementou uma ação de Carnaval sustentável que envolveu cerca de 200 catadores de material reciclável para coletar e separar resíduos gerados nas áreas dos megablocos.
Os materiais recolhidos foram levados a uma central de triagem estruturada, onde eram pesados e classificados, e os catadores recebiam remuneração proporcional à quantidade entregue, chegando a até R$ 250 por dia, dependendo do volume coletado.
O sistema de coleta incluiu pesagem imediata, registro de volumes e pagamento no local, estimulando tanto a destinação correta de resíduos quanto a inclusão social e a geração de renda para esses trabalhadores durante a folia carnavalesca.
Rio de Janeiro: do Projeto Sustenta Carnaval ao Selo Verde
A sustentabilidade já desfila nos carnavais do Rio de Janeiro há algum tempo. Desde 2020, o Projeto Sustenta Carnaval, criado por Mariana Pinho, reaproveita fantasias e materiais cenográficos descartados após os desfiles no Sambódromo do Rio, evitando que resíduos têxteis — muitos com decomposição estimada em até 400 anos — sejam destinados a aterros.
Em parceria com a LIESA, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima e a Comlurb, a iniciativa realiza coleta, triagem e redistribuição dos materiais, integrando economia circular e economia criativa.
Em cinco anos, cerca de 66 toneladas de fantasias foram reaproveitadas, gerando trabalho e renda para artesãos e coletivos criativos, além de promover ações educativas e culturais ao longo do ano.
Neste ano, a campanha Folia Verde destacou blocos e megablocos que se comprometeram com práticas sustentáveis e gestão responsável de resíduos, recebendo o Selo Folia Verde como reconhecimento dessa atuação.
Conduzida pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima, a iniciativa envolveu aproximadamente 450 profissionais, incluindo catadores de materiais recicláveis e integrantes do programa Guardiãs das Matas, com foco na redução de resíduos e das emissões de gases de efeito estufa durante a folia.
O Folia Verde também incluiu ações de educação ambiental com foliões, reforçando boas práticas de descarte e conscientização ambiental em diferentes blocos, desfiles na Marquês de Sapucaí e na Estrada Intendente Magalhães.
O Galo da Madrugada promoveu a economia circular em Recife
O Galo da Madrugada é reconhecido internacionalmente como um dos maiores blocos carnavalescos do mundo, reunindo milhões de foliões e exercendo papel central no Carnaval pernambucano.
Nos últimos anos, o bloco tem incorporado, de forma consistente, práticas alinhadas à sustentabilidade e à economia circular, ampliando o impacto positivo dessa manifestação cultural.
Entre as iniciativas implementadas, destaca-se a adoção de sistemas de coleta seletiva durante o desfile, desenvolvidos em articulação com cooperativas de catadores, instituições públicas e parceiros locais, contribuindo para a destinação ambientalmente adequada de resíduos recicláveis e, simultaneamente, para a geração de renda e inclusão social.
Paralelamente, a sustentabilidade passou a integrar o bloco como eixo conceitual, educativo e estético. O tema “Frevo no Planeta Galo”, que agitou o Carnaval de 2026, reforçou essa diretriz ao incorporar o uso de materiais recicláveis e reaproveitados na confecção de esculturas e elementos cenográficos, associando arte popular, educação ambiental e economia circular.
Essas práticas demonstram como grandes manifestações culturais podem atuar como instrumentos de sensibilização coletiva, estimulando comportamentos sustentáveis em larga escala por meio da linguagem simbólica do Carnaval.
Nesse contexto, a produção da indumentária do emblemático “Galo Gigante” destaca-se como a ação mais visível e simbólica do compromisso socioambiental do bloco.
A estrutura foi confeccionada majoritariamente a partir de garrafas PET, canos de PVC, pneus, lonas e outros materiais reciclados, evidenciando o potencial da economia circular aplicada à cenografia carnavalesca.
Para viabilizar a coleta, a Prefeitura do Recife disponibilizou 14 ecoestações e mais de 130 Pontos de Entrega Voluntária (PEVs) distribuídos pela cidade, fortalecendo a corresponsabilidade entre poder público, organizadores do evento e sociedade civil e consolidando o Carnaval como plataforma de inovação cultural e ambiental.
Carnaval brasileiro é referência em sustentabilidade
O Carnaval brasileiro mostra que é possível unir celebração cultural, geração de renda e responsabilidade socioambiental.
Ao integrar as economias Criativa e Circular, a celebração transforma resíduos em recursos, fortalece cadeias produtivas e promove inclusão social.
Diante dos desafios ambientais de um evento dessa magnitude, iniciativas de reaproveitamento de materiais, gestão sustentável e educação ambiental evidenciam que o Carnaval pode ser também uma plataforma de inovação, sustentabilidade e impacto positivo duradouro.
Com tantos exemplos consistentes, é possível afirmar que o Carnaval brasileiro vai além de sua dimensão cultural e se consolida como um laboratório de soluções socioambientais, evidenciando que tradição e inovação podem caminhar juntas na construção de modelos culturais mais resilientes, responsáveis e alinhados às demandas do nosso tempo.
*Raquel Gomes é mentora e consultora em inovação sustentável, economia criativa e desenvolvimento territorial. Atua com formação empreendedora, inteligência competitiva e estratégias de impacto socioambiental.