Mais do que agenda sustentável, a circularidade emerge como fator de competitividade e nova base de eficiência econômica
Por Bruno Passarelo*
A Economia Circular deixou de ser um tema periférico para se consolidar como uma estratégia central de competitividade. Mais do que reduzir impactos, ela reorganiza a lógica de criação de valor ao priorizar retenção de materiais, extensão da vida útil de ativos e diversificação de receitas.
Evidências empíricas recentes confirmam esse movimento. Um estudo conduzido pela Università Bocconi, em parceria com a Ellen MacArthur Foundation, analisou 222 empresas europeias e demonstrou que organizações com maior grau de circularidade apresentam menor risco de default e melhor desempenho ajustado ao risco.
Em termos quantitativos, empresas mais circulares chegaram a apresentar risco de default até 12 vezes menor no horizonte de um ano, evidenciando que a circularidade não apenas melhora a eficiência operacional, mas altera estruturalmente o perfil de risco financeiro.
Além disso, a análise demonstra ganhos consistentes em indicadores como o Treynor Ratio, sugerindo que modelos circulares capturam prêmio de eficiência ajustado ao risco.
Esse resultado reforça a tese de que a circularidade deve ser interpretada como estratégia de alocação eficiente de capital, e não apenas como prática de sustentabilidade.
A economia global ainda é estruturalmente linear
Apesar do avanço conceitual e do aumento de investimentos, a economia global permanece amplamente linear e com sinais claros de agravamento estrutural. O Circularity Gap Report 2026 confirma que apenas 6,9% dos materiais utilizados globalmente retornam ao ciclo produtivo, o que implica que mais de 93% dos fluxos materiais ainda dependem de recursos virgens, reforçando a persistência do modelo “extrair-produzir-descartar”.
Mais do que um problema de baixa circularidade, o relatório introduz uma dimensão econômica inédita: o chamado “Value Gap”. Estima-se que cerca de € 25,4 trilhões em valor econômico são perdidos anualmente devido à ineficiência no uso de materiais, descarte prematuro de ativos e subutilização de recursos, o que representa aproximadamente 30% do PIB global.
Esse dado reposiciona o debate: a linearidade não é apenas ambientalmente insustentável, mas economicamente ineficiente em escala sistêmica. A perda de valor ocorre ao longo de toda a cadeia, desde ineficiências produtivas e consumo energético até desperdício de alimentos, descarte no fim de vida e subutilização de ativos.
Além disso, o consumo global de materiais continua crescendo em ritmo superior aos ganhos obtidos por reciclagem e reuso, aprofundando o “gap de circularidade”. Mesmo com avanços pontuais, a economia global segue ampliando seu estoque de materiais, pressionando recursos naturais e limitando o fechamento de ciclos.
Essa lacuna revela uma perda estrutural de produtividade, em que materiais e ativos com valor incorporado são sistematicamente descartados, elevando custos, reduzindo eficiência e ampliando a exposição a riscos.
O custo crescente da linearidade
O modelo linear expõe empresas a riscos que não são mais marginais; são estruturais e crescentes:
- volatilidade de commodities
- disrupções na cadeia de suprimentos
- pressão regulatória crescente
A dependência de fluxos contínuos de matérias-primas virgens torna as empresas mais vulneráveis a choques de preço e restrições de oferta. Esse risco é ampliado pela concentração geográfica de recursos e pela crescente instabilidade geopolítica.
Do ponto de vista sistêmico, a linearidade implica perda de valor ao longo do ciclo de vida dos produtos. Como destacado na literatura, materiais são transformados e descartados sem captura de valor residual, gerando ineficiências econômicas cumulativas.
No contexto brasileiro, embora existam avanços institucionais como a Política Nacional de Resíduos Sólidos, o Decreto nº 10.936/2022 e a Estratégia Nacional de Economia Circular, a adoção empresarial permanece concentrada em práticas incrementais, sem transformação estrutural dos modelos de negócio.
Esse descompasso entre regulação e prática amplia riscos. À medida que externalidades são internalizadas, empresas lineares enfrentam aumento de custos operacionais, maior pressão competitiva e deterioração de margens.
Do ponto de vista financeiro, isso se traduz em maior percepção de risco e aumento do custo de capital.
Circularidade como estratégia de desrisco
A principal mudança recente é a incorporação da circularidade como variável financeira relevante. Empresas com maior grau de circularidade apresentam:
- menor probabilidade de default (até 12x menor)
- maior resiliência a choques macroeconômicos
- menor volatilidade de retornos
Esses efeitos são resultado de três mecanismos estruturais:
- Redução da dependência de insumos críticos: materiais secundários e ciclos fechados reduzem exposição a preços voláteis.
- Estabilização de receitas: modelos como leasing, remanufatura e serviços criam fluxos recorrentes.
- Preservação de valor ao longo do ciclo de vida: ativos deixam de ser descartados e passam a gerar múltiplos ciclos de receita.
Além disso, a circularidade atua como mecanismo de proteção contra riscos de longo prazo, incluindo ativos encalhados (stranded assets) em setores intensivos em recursos.
Outro ponto crítico é a redução da assimetria de informação. À medida que métricas de circularidade são incorporadas em modelos financeiros, aumenta a capacidade de avaliação de risco e a bancabilidade de projetos circulares.
Tabela – Impacto da circularidade em indicadores financeiros
Investimentos: crescimento com desalinhamento
O capital destinado à Economia Circular cresceu de forma relevante, mas sua alocação permanece ineficiente.
Hoje, observa-se um desalinhamento estrutural:
- maior parte do capital → soluções de baixo risco e baixo impacto
- menor parte do capital → soluções de alto impacto sistêmico
Segmentos como revenda e reparo concentram investimentos, enquanto áreas críticas permanecem subfinanciadas, como infraestrutura circular, reciclagem avançada e design para circularidade.
Esse desalinhamento limita a capacidade de captura do valor econômico associado à circularidade. Em um contexto em que o “Value Gap” global supera € 25 trilhões anuais, a subalocação de capital em soluções de alto impacto representa uma ineficiência financeira relevante.
Ao mesmo tempo, cria-se uma oportunidade estratégica para investidores capazes de assumir risco em infraestrutura e inovação circular, com potencial de retorno ajustado ao risco superior no médio e longo prazo.
Setores com maior potencial econômico
A captura de valor via circularidade é desigual entre setores, concentrando-se naqueles com maior intensidade material.
Os principais são:
- construção civil → maior consumidor de materiais do mundo
- eletrônicos → alto valor incorporado e obsolescência rápida
- têxteis → ciclos curtos e baixa taxa de recuperação
- embalagens → alto volume e baixa retenção de valor
- agronegócio → fluxos biológicos com potencial de reintegração
Nesses setores, a linearidade gera perdas significativas de valor ao longo da cadeia, desde desperdício produtivo até descarte prematuro, mas também gera oportunidades claras de captura de eficiência via reuso, remanufatura e redesign.
O desafio da escala
A Economia Circular já demonstrou viabilidade técnica e econômica. O desafio agora é a escala.
Os principais gargalos são:
- ausência de métricas padronizadas
- dificuldade de avaliação de risco
- falta de instrumentos financeiros adequados;
- desalinhamento regulatório.
A ausência de métricas consistentes limita a comparabilidade entre projetos e dificulta a mobilização de capital em escala. Ao mesmo tempo, a falta de instrumentos financeiros adequados restringe o financiamento de soluções inovadoras.
Esse conjunto de fatores cria um gargalo estrutural: a circularidade é economicamente viável, mas ainda não plenamente financiável em escala.
Circularidade como infraestrutura econômica
A Economia Circular representa uma mudança estrutural na forma como valor e risco são distribuídos na economia.
Os dados são inequívocos:
- apenas 6,9% de circularidade global
- €25,4 trilhões de valor perdido anualmente
- até 12x menos risco de default em empresas circulares
Isso posiciona a circularidade não como agenda ambiental, mas como infraestrutura econômica crítica.
Escalar a economia circular exige alinhamento entre capital, regulação e modelos de negócio. Mais do que uma agenda ambiental, trata-se de construir uma nova base de eficiência econômica.